James Heeley: de designer à perfumista
Expert

James Heeley: de designer à perfumista

por Vânia Goy

Você, perfumista amador: James Heeley, inglês radicado em Paris, é autodidata e hoje tem uma linha com aquela coisa difícil de definir chamada identidade. Todos apontam para uma elegância bem cortada, digamos, sem excessos, mas passando longe do sisudo. Chegado a perfumaria pelo design gráfico, de mobiliário e interior, sua mentalidade visual transparece nas criações. Sel Marin é a melhor tradução de uma caminhada na praia, Esprit du Tigre é inspirado no Tiger Balm, a pomada chinesa usada para tratamento de dor muscular, cheia de cânfora e óleo de cravo. “Para mim fragrâncias são muito visuais, elas podem literalmente levar alguém para outro lugar, mesmo que por um momento fugaz.”

Você trabalhava como designer de objetos com o florista Christian Tortu. Qual foi o momento chave para mudar de carreira e partir a para perfumaria?

Trabalhei com o Christian Tortu mas não para ele. Ele distribuiu com exclusividade uma linha de vasos de zinco que desenhei, dos quais cópias em vários os materiais inundaram o mercado nos anos 90.

Como autodidata (eu estudei filosofia e direito no King’s College, em Londres), cheguei ao mundo do design pelo design gráfico, que levou ao de produto, mobiliário e interior. Natureza e temas florais sempre influenciaram designers, mas meu interesse particular não era só sobre forma e cor, mas também fragrância. Até então eu não tinha parado para pensar como perfumes eram concebidos e fabricados, e quanto mais descobria, mais queria aprender. Aprender a criar fragrâncias é um processo longo, gradual, que como muitos processos criativos, nunca termina de verdade.

No seu site você sugere personagens ou situações de uso de cada perfume, para homens e mulheres. Eles surgem antes ou depois do perfume em si?

Os personagens que falo são apenas pensamentos que me ocorrem quando estou criando ou termino um perfume: de forma alguma são definitivos mas tentam estimular a imaginação e o interesse do leitor. Eles podem sugerir atitude, comportamento e humor. Então são excelentes pontos de partida para um personagem ou situação e te jogam direto numa cena ou contexto.

Além dos personagens tem algo de cinematográfico em cada perfume, como um por do sol na praia ou visita a igreja. Sua cabeça funciona de modo visual?

Bastante. Para mim fragrâncias são muito visuais. Podem lembrar cores, texturas, tons, temperaturas, paisagens e sensações. Sempre fui um pouco sonhador e fragrâncias me ajudam a imaginar coisas diferentes do que elas são. São uma porta para a fantasia e estimulam minha imaginação. Elas podem literalmente levar alguém para outro lugar, mesmo que por um momento fugaz.

Você tem um perfume baseado em menta, cuja primeira associação é com creme dental, outro no cheiro do Tiger Balm. Essas referências estranhas a perfumaria te atraem?

Não, acho que não. Trabalho com ideias que me interessam em dado momento. Talvez seja porque nunca estudei perfumaria formalmente que me sinto livre para tomar caminhos não convencionais, assim como me sinto livre para andar por caminhos batidos. Eu não quero criar perfumes revolucionários, altamente originais, assim como não crio um perfume de um ponto de vista comercial. Mas é uma fonte inegável de prazer saber que as pessoas gostam dos meus perfumes e eles são um sucesso.

Você planeja lançar sua marca no Brasil?

Gostaria muito. Nunca fui ao Brasil mas sei que vou amar! Claro, eu sei que brasileiros adoram perfume e tem uma energia grande, calorosa. Parece ser um mercado difícil de entrar principalmente por causa das altas taxas de importação mas com certeza vou tentar, mesmo que tenha que fabricar aí: sem dúvida vou achar um jeito de fazer funcionar.

Qual é o cheiro de Paris?

Eu queria poder dizer “primavera” mas, como a maioria das cidades, ela não cheira muito bem. Mesmo que o cigarro tenha sido banido dos cafés é difícil mudar velhos hábitos e o cheiro predominante tem que ser cigarro e café.

O que faz um grande perfume?

Acho que ele é instantaneamente reconhecível mas, mais importante, é ter o poder de evocar uma emoção, uma sensação irresistível, um sentido de beleza e maravilha, ou simplesmente uma sensação de bem estar e prazer. Acho que não há muita regra. O remédio de um é veneno de outros.

O que faz de um perfume um clássico?

Como todos os clássicos ele tem uma qualidade atemporal que pode ser apreciada por gerações diferentes.

>> por Dênis Pagani, perfumista no comando do 1Nariz e o novo colaborador do Belezinha. Seus textos serão publicados por aqui quinzenalmente! Para saber um pouquinho mais sobre dele dá uma olhada clique aqui!

 

Posts Relacionados